Na casa do Barão

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Na casa do Barão

Fomos ver de perto onde e como se faz uma cachaça que você precisa conhecer

Da redação – Publicado em 31/08/2018, às 10h52

IVAN ZURITA, EX-PRESIDENTE da Nestlé, no Brasil, é aquele tipo de gente que sorri com os olhos.

E durante quase todo o tempo, no dia inteirinho que passei com ele, sorria por trás dos óculos.

O único momento que lançou olhares menos amigáveis foi quando falou que o Brasil não é hoje um país em recessão: “É um país em depressão”. “O brasileiro está abalado moralmente. Precisamos aprender a trabalhar sem governo.”

Palavra de quem fez a empresa que dirigiu empregar e crescer seis vezes mais, sob a sua gestão. O olhar continua sério quando fala com satisfação da colônia de dezenas de famílias que vivem na sua Fazenda Santa Cruz, na região de Araras, no interior paulista. E da maneira como lida com os colonos. “Eles têm escola, saúde. Faço festa e dou prêmios para quem se destaca.

As casas onde vivem estão todas reformadas. Não sou dinheirista, me orgulho disso. Quem vive aqui se sente dono da terra e me ajuda a cuidar dela. Mas cobro também”, diz. “O resultado é importante porque é uma avaliação do trabalho que se faz.”
A lida hoje, entre outras coisas, inclui a escolha da melhor cana-de-açúcar possível, em apenas 15 hectares, dos 200 mil das fazendas do Ivan.

O alambique

Finalmente a cachaça segue para o alambique de ponta (melhor chamar de destilaria), que ocupa hoje o prédio onde acontecia a raspa da mandioca, na Santa Cruz. Ali, é produzida a Cachaça do Barão, projeto que ele vem tocando com o genro, Leonardo Queiroz, e com a filha, Daniella Zurita. Ele não é um brinquedo, é um negócio.

“Não quero vender volume, quero agregar valor”, define, referindo-se ao conceito que está por trás dos 180 mil litros de pinga que dormem nos barris de carvalho, na área com temperatura naturalmente mais baixa, da construção centenária.

Ivan anda com desenvoltura pelo lugar, fala sobre cada processo, sobre cada máquina e também dos ensinamentos que aprendeu na Nestlé e está aplicando aqui.

Como o resfriamento do líquido já destilado, para garantir mais pureza, antes mesmo de ser duas vezes filtrado. A segunda filtragem é para dar um toque mais aveludado para a bebida. Como ele defende, a cachaça que produz é feita para que qualquer apreciador de um bom destilado tenha prazer ao degustar o produto.

Tipos da Cachaça do Barão

A Cachaça do Barão é feita em quatro tipos: Reserva especial, Ouro, Platina e Prata.

A Ouro e a Especial, depois de “prontas” repousam durante três e cinco anos, respectivamente, em barris antes usados uma vez para descansar vinho.

As barricas novas acentuariam a presença da madeira na bebida e ela ficaria com algo de brandy, que não agrada aos produtores.

Assim a ideia aqui é valorizar a identidade da cachaça, aperfeiçoando o produto nos detalhes. Mais um deles é a moagem da cana.

Ivan usa um moedor de altíssima potência que alcança o, digamos, tutano da cana, onde certamente está a maior concentração de açúcar.

Ele confere mais suavidade (sem adoçar, claro) a cachaça, evitando o retrogosto acentuado da matéria-prima – aquele que costumamos sentir em muitas branquinhas e que travam a garganta.

Por isso, as versões Platina, que passa por madeira de amendoim, e a Prata, que passa pelo jatobá, são tão adequadas para coquetelaria (além da pureza).

Em caipirinhas, por exemplo, elas nos permitem sentir mais o gosto da fruta – característica relevante para quem gosta do coquetel, levemente adoçado.

Na fazenda

De volta a Santa Cruz, Ivan parece um menino andando por ela. O lugar é lindo, coisa de cinema. A sede, em estilo inglês, chegou a receber o Príncipe Charles, numa das suas passagens pelo Brasil.

Foi ela que trouxe mão de obra especializada, de fora do país, para construir a fazenda anos e anos atrás. Montou olaria, serraria e marcenaria.

Tudo que tem lá é daquela época. Inclusive a piscina de mármore de carrara, abastecida com água mineral, da nascente, afastada cinco quilômetros dela.

Admirador dessas relíquias, o dono da casa faz um garimpo do que merece ser exibido. “Muitos herdeiros só pensam no dinheiro, não dão valor às coisas.” Ele dá.

Era ali onde a cachaça que ele produzia e envelhecia, era vendida como… uísque! Isso lá no século 19.

Quando teve a ideia de fazer a Cachaça do Barão, pensou em corrigir essa pegadinha histórica, mas acabou se rendendo a outra homenagem: o barão que dá nome à pinga é o pai dele, Ivan Estevam Zurita.

O homem, assim como o pai dele, chegou a ser prefeito de Araras, ajudou muito no desenvolvimento da cidade.

Curiosidades da Cachaça

Andando por lá e querendo falar com o protagonista desta reportagem, não pergunte por Ivan Zurita. A reposta será uma tremenda cara de ué… E com a resposta: “Qual deles?”. O patriarca teve cinco filhos, todos “Ivans”: Inácio, Elpídio, Estevam Jr., Fábio, Eduardo.

Foi uma lenda. E a cachaça que o homenageia jamais poderia ser menor do que o homenageado. Ivan define o produto como a nobreza popular brasileira e explica o termo aplicando-o a nomes como Pelé e Jorge Amado.

A cachaça, como ambos, tem grande penetração também no mercado internacional, uma vez que realmente “seja feita como se deve”.

Ao ouvir mais uma das suas histórias, enquanto dirige e mostra a sua propriedade, entendemosmelhor ainda quem é esse homem que, ainda garoto, saiu da sua cidade natal para estudar no colégio Rio Branco, depois na faculdade Mackenzie, na AMD (a Harvard da Europa) e marketing na Universidade de Nova York.

“Quando eu tinha 8 anos, morava numa chácara vizinha à Santa Cruz. Para ir à escola, passava todos os dias por ela e por um trole (um tipo de charrete) que eu adorava. Numa ocasião, desci do cavalo e pedi para falar com a D. Condessa, que eu sabia que era a dona do lugar. Ela me atendeu. Falei que queria comprar o trole e que ela colocasse preço nele. Não tinha dinheiro, mas ia dar um jeito. Dias depois, ela me deu a peça de presente. Hoje,
passeio com os meus netos nele.”

 

Por: SaborClub

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